sexta-feira, 20 de março de 2009

TODO CORAÇÃO TEM SEU ABRAÃO

Eu não amo o passado, o tempo que não vivi. Minhas referências literárias e culturais me são contemporâneas, e hoje, percebo que foram o caldo que forjou minha identidade, "consciência e juventude".

Nenhum desejo neste domingo nenhum problema nesta vida o mundo parou de repente os homens ficaram calados domingo sem fim nem começo
Drummond de Andrade

Quando eu era menino, li Drummond.
Quase tudo.
Admirava-me a forma: Nem métrica nem rima ? o verso livre!
Admirava-me o texto: existencial para além da própria poesia.
Não fui eu quem escolheu o mineiro. Aconteceu. Li a MORTE DO LEITEIRO e nunca mais parei...
Eu era muito caseiro.

***
As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos.

Chegou a adolescência e adotei os ?sons e tons? da minha própria geração.
Daí eu já não queria ler, queria ouvir... E cantar sob o calor da fogueira, nos ritos da sexualidade.
Era o rock nacional; pós-Raul...
E eu podia escolher. De Engenheiros a Barões; de Titãs a Legiões!
Dado à melancolia e carregado de um misto de realismo com a ufania própria da idade,
Eu fiquei com Renato. Russeau do meu tempo.
Não fui eu quem escolheu a banda brasiliense. Ouvi NEM FOI TEMPO PERDIDO e nunca mais parei...
Eu saí à rua.


***
Não sou escravo de ninguém Ninguém, senhor do meu domínio Sei o que devo defender E, por valor eu tenho E temo o que agora se desfaz
A adolescência acabou e sobrou pouco de mim mesmo em mim.
Então, já não queria ler e nem ouvir, eu queria juntar os pedaços que deixei por aí.
Vieram-me às mãos os escritos de Caio Fábio, um ex-desintegrado!
Seguir Jesus... Tornou-se para mim... o mais fascinante projeto de vida?!
Eu nem pude escolher o evangelista amazonense. Nem pude ler outros. Nem quis ler outros. O reverendo tinha poesia e denúncia, e na voz, algo novo para mim: Esperança!... Tanta!
Então, li tudo (sem deixar de vagar pelo mundo mais lúdico do velho poeta desinteressado pela vida e do compositor enfastiado dela tão cedo. Sim, mantive por perto tanto o poeta como o músico; pois a literatura caiofabiana nunca se pretendeu literatura. Era utilitária e instrucional, com exceções generalizadas; lembro-me de uma que devorei às lágrimas: Era MAIS QUE UM SONHO).
Sim, as antigas referências se mantiveram como recordação da minha desagregação. E creiam-me: Faz parte ainda do que me faz forte....
Já os estudos do pastor protestante iam muito para além do protesto e do decifrar das Escrituras: Ecoavam letra & som da Eternidade.
Neles, fui apresentado ao Autor e Consumador da minha Fé, e pela primeira vez na vida, senti-me íntegro e agregado, devolvido.
Mas não fui eu quem escolheu o Moço Nazareno feito Deus.
Ou Quem inventou o amor?
Ele que me escolheu para ser sempre Seu!


***

Viajamos sete léguas Por entre abismos e florestas Por Deus nunca me vi tão só É a própria fé o que destrói Estes são dias desleais.
Passei a juventude clamando à Juventude que O conhecessem: Jesus de todas as gerações!
Mas eu vejo tudo que se foi e o que não existe mais
Nosso reino se corrompeu, numa Universal adesão à Mamon.
Tá tudo assim... tão diferente!
Então, perdi a minha sela, minha espada e meu castelo!
Fiquei sozinho. E no meio do Caminho uma pedra maior que um sonho!
Meus três mocinhos já haviam morrido.
Ai.
Os bons morrem antes... Sempre cedo demais.
As Estações, então, mudaram de vez,
E eu voltei para casa.


***
Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada Ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, Garanto que uma flor nasceu. Sua cor não se percebe. (...) É feia. Mas é realmente uma flor.
Drummond


De tanto falar em Vida, meu pastor ressuscitou!
Com o braço posto para fora dos escombros, meu Pai o agarrou!
Daí voltou do deserto com a boca cheia de Evangelho,
Agora ele é o Caio. Só Caio, o velho!
E eu?
Eu vou seguindo o Sol. Com a luz do seu calor faço a solda entre os mundos!
Eu voltei para rua.
Elias está nas ruas.
O Caminho está nas ruas.


***

Teremos coisas bonitas pra contar.
E hoje?
Hoje, eu não faço poesia e nem música.
Não sei escrever.
Não sei cantar.
Eu prego.
Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças. (...)
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
(...)
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.
E a eles eu grito:
Quando o Sol bater na janela do seu quarto, lembra e vê que o Caminho
(...) ainda é UM só!


***
Você pode me entender?


***
A tempo: Cada um será alcançado e N´Ele encontrado pela fundição entre o Eterno/denso e o etéreo/rarefeito em si mesmo!
Sendo assim, não há tempo perdido debaixo do Sol.
E aos que me julgam cheio de humanidade tosca (meu filósofo é desse tempo e morreu de AIDS, meu poeta é brasileiro e morreu faz pouco, e meu profeta ainda está vivo), saibam de uma vez, tudo é pior do que pensais:
Toda mente é uma Legião!
Toda geração tem seu Estevão!
Todo coração (...) seu Abraão.
Ao Caio, meu pai ? na fé, na esperança, na história ? em seu aniversário de 54 anos.


Marcelo Quintela
Santos/SP
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