quinta-feira, 17 de julho de 2008

Alma Sobrevivente – Bienvenida

O título acima é de um livro de Philip Yancey, que gostei muitíssimo. Nele, Yancey compartilha momentos de sua trajetória cristã. Especialmente, quando compartilha como sua fé permaneceu por que apesar da “igreja”, muitas pessoas impactaram sua vida com suas próprias vidas.

Lendo-o, pensei em minha vida quais pessoas impactaram-me de forma marcante. Lembrei de algumas que cultivavam lindas flores no jardim só para presentearem os outros; outras que pessoas esperavam o ano todo para ajudarem na Sopa de Mocotó; tinham aquelas que gostavam muito de interceder pelos outros, mas sem poderes ou barganhas – apenas porque amavam; e ainda tinham aquelas que alegravam-se com as alegrias dos outros, desde boletim de escola à livramentos. Contudo, dentre os queridos que me vieram à mente, existe uma pessoa que creio que ela mesma sequer imagina o tamanho do impacto que causou à minha fé – e no caminho que tenho feito hoje, tenho voltado a estas raízes e estas pessoas simples, mas cheias do Evangelho.

Estou falando de uma senhora chamada Bienvenida. De origem paraguaia, casada com um brasileiro e que mora no interior do Rio Grande do Sul. E como ela mesma dizia, “uma baixinha espavitada de Jesus”. Esta discípula, ensinou-me muito sobre o Evangelho através de seu amor pelas pessoas. Ela tinha alguns dons, e um que fazia-se evidente era o de ajuda e serviço.

Toda sexta-feira, durante o frio intenso do inverno gaúcho, ela coordenava um sopão. Os ingredientes eram oriundos de doações que ela coletava em supermercados da cidade – verduras boas mas com pequenos danos. Tirávamos qualquer “machucado” das verduras e fazia uma sopa de-li-ci-o-sa! (era boa de verdade, pois eu nunca resisti ficar sem comê-la). Depois de feitas umas 2 ou 3 panelas enormes, levávamos o sopão de kombi para um bairro bem carente onde havia um trabalho missionário com crianças, uma espécie de creche. Essa missão convidava a todos, crianças, famílias e quem quisesse para buscar sua porção. Junto da sopa, distribuíamos pães torrados que os mercados também doavam, pães “amanhecidos” e que não serviam mais para a venda. Nestas idas, ainda levávamos roupas arrecadas pela Bienvenida que algumas pessoas doavam para essa comunidade. Ah e também iam junto alguns potes com uma geléia bem gostosa (idéia e “braços”dela), também produzida com frutas muito maduras e com as partes boas, também fruto de doações.

Além disto, ela sempre tinha outros projetos sociais como ensinar espanhol pra quem precisasse ou fazer meias de lã com retalhos para aquecer os pés de quem não tinha condições de comprar meias, e que morava naquele lugar que tem um inverno muito intenso.

Se não bastasse o atendimento social não só aquela comunidade como às pessoas que a procuravam, a Bienvenida constrangia-me pessoalmente com seu carinho e cuidado. Naquela época, como estudante de teologia, quando a visitávamos ela arrumava o sofá com travesseiros e cobertores, colocava um filme e ia para a cozinha preparar um suco gostoso e uma comida temperada e maravilhosa. Sabe quando você sente como se fosse alguém realmente muito importante em um lugar? É assim que me sentia quando a visitava.

Era a irmã Bienvenida quem supria os estudantes de teologia em suas necessidades, pois ela percebera que a grande maioria tinha de parar de trabalhar por causa do curso diurno. Ela lutou junto a igreja local para que houvesse uma verba mensal destinada especificamente para comprar mantimentos aos estudantes. Ela conseguiu. Então, nós fazíamos uma pequena lista do que estávamos precisando – ela comprava tudo o que lá continha, e do bom e melhor. Nunca esquecerei de um dia quando estava estudando e vivia um momento de dificuldade financeira, sem dinheiro pra comprar sequer os ingredientes do café da manhã. O que fazer? orei e coloquei diante de Deus. Quando sai de meu quarto em direção ao armário de correspondências, a surpresa: lá estava uma sacola com pão, leite, café e algo pra passar no pão. Foi uma experiência com Deus inesquecível, e a Bienvenida nem sabe disto!

Lembro dela à caráter cantando em português, espanhol e guarani: “Só o poder de Deus, pode mudar teu ser. A prova que eu te dou, é que mudou o meu...” Apesar de não ter uma saúde de ferro para empreender tantas e diferentes frentes e sentir dores fortes nas mãos, não via-se ela se queixando da vida. Pouco tempo depois, ela teve inclusive de passar por uma delicada cirurgia, que não tirou-lhe o amor e atenção para com o próximo.

Como a Bienvenida, existe muitos filhos da graça que vivem o Evangelho “por detrás dos holofotes e das cortinas”. Eles não precisam de cargos, lugares ou câmeras – O Caminho, A Verdade e A Vida os acompanha, e isso é mais que suficiente.

Jesus sabia a dimensão de suas palavras quando afirmou que aqueles que desprezam os primeiros lugares acham a vida. Os últimos lugares permitem a vida de aflorar primeiro, pois não estão preocupados com sua posição.

Naquele que conhece o coração,


Daniel Bedhung - Estação Brusque/SC
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