quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Quandos as calamidades realizam o bem de Deus: Mais um enigma da Graça


Paulo disse que haverá o dia da grande surpresa, que será quando Deus abrir os “segredos dos corações dos homens”.

Ora, Paulo falava não do óbvio - que é a certeza da maldade humana -, mas, ao contrário, referia-se ao susto que se terá ante a imensa quantidade de gente de Deus que existiu fora de qualquer informação explicita ou consciente acerca da Lei de Deus ou do Evangelho (Romanos 2:12-16).

Assim, ecoando a parábola do Joio e do Trigo no Campo do Mundo, Paulo diz que aquele que vê cara e/ou apenas fotos de cenários humanos, não vê nada acontecendo no coração.

Nisto reside o grande enigma da Graça!

Os amigos de Jó olhavam o que estava acontecendo a ele, todas as suas perdas dramáticas, todas as suas dores, e pensavam: “Ele deve ter feito algo muito mau aos olhos de Deus!”

Entretanto, era justamente o oposto.

Jó estava sofrendo o que sofria por ter sido tão profundamente de Deus que isso incomodou até - e sobretudo - Satanás. Além disso, tudo aquilo era parte de um enigma indecifrável em sua operação, pois seria pela calamidade que Jó haveria de conhecer a Deus de modo essencial e visceral.

Isto porque antes de tudo acontecer Jó conhecia a Deus só de ouvir e de saber; daí o amar, mas, sobretudo, o temer, pois o reconhecia e de tal reconhecimento obtinha sabedoria. No entanto, após tudo o que houve, Jó foi imerso gradualmente na experiência de Deus, ao ponto de, ao fim de tudo, quedar-se agradecido por ter passado por tudo a fim de conhecer a Deus como quem o vê.

“Agora os meus olhos te vêem”.

Às vezes alguém vê uma pessoa sofrendo muito ou passando por aquilo que se pede a Deus que nos poupe de conhecer por experiência e, observando isto, julga que aquilo que vê com os olhos é a ira de Deus se derramando sobre a tal pessoa. Porém o observador não sabe que nunca antes aquela pessoa tinha crescido tanto na experiência de Deus como em meio à sua dor ou dores.

Outras vezes vemos pessoas prósperas e tranqüilas aos nossos olhos e imaginamos que elas são as simbolizações perfeitas das “bênçãos de Deus”, sem sabermos que naquela tranqüilidade aquelas pessoas estão se anestesiando, perdendo os nervos da alma; pois andam cada vez mais em sua própria força e presunção de poder e capacidade, até que chegue sobre elas a luz ou as trevas, visto que para Deus as trevas e a luz são a mesma coisa, conforme Isaías e o Salmo 139.

As trevas e a luz são a mesma coisa!...

Assim, a luz cega a Paulo e o imerge em trevas para que veja. Depois disso Paulo teve que aprender que quem vê e interpreta nem sempre interpreta o que é, mas quase sempre o que “projeta ou transfere”.

Sim! Após sua conversão ele teve que viver o resto de sua vida sendo interpretado pelos judeus como um herege, um desertor ou um louco, e pelos cristãos de Jerusalém como um ser independente e insubmisso. Afinal, não só jamais subira a Jerusalém para pedir conselhos, como também se adiantou em entendimento espiritual em relação aos crentes híbridos da Cidade Santa, pois levou o Evangelho às implicações que os de Jerusalém não queriam, e por isso diziam que não podiam admitir.

Quem passasse e apenas visse os três crucificados (Jesus e os dois malfeitores) e nada ouvisse do que entre eles era dito e conversado, jamais iria imaginar que o do Meio era Deus, e que um dos que Lhe falavam estava recebendo a promessa de já passar no Paraíso de Deus a primeira noite após a sua morte na terra.

Ninguém sabe nada dos que nada dizem ou dos que não são ouvidos. E ninguém sabe nada porque raramente quem ouve o faz com o coração limpo de juízos.

Entretanto, na maioria das vezes, a Graça está operando no absurdo e no impensável...

Porém, enquanto isso, os homens não entendem, e julgam o bem da Graça na vida do “ser calamitoso” como sendo sinal de seu pecado. Mas não vêem que mesmo quando o é, ainda assim o mais ativo meio de Graça num mundo caído está em operação em meio ao que chega à pessoa como dor e como perda, embora os que observem a tal pessoa já cheguem interpretando tudo como juízo divino.

Paulo sabia o quanto os que o julgavam estavam enganados, e por isso transferia tal possibilidade de má interpretação a si mesmo.

Ora, essa era a razão de ele - que era um filho da misericórdia e que buscava alcançar misericórdia - transferir a mesma possibilidade de interpretação equivocada para qualquer que fosse o juízo que ele pudesse fazer acerca de todos os “mal interpretados”. De fato, não apenas pelo que ele sabia que era a verdade, mas pela sua própria experiência com a realidade, ele cria que haveria o dia quando mesmo os pagãos mais longínquos haveriam de se tornar uma surpresa chocante para aqueles que, a distância, os julgavam perdidos por completo. Assim como os judeus julgavam que Paulo estava perdido.

Quanta salvação acontece sob os mantos de trevas e perdições!

Quanta reconciliação humana acontece nas perdas!

Deus tem filhos que os que chamam a si mesmos “filhos de Deus” jamais admitiriam à família!

Assim, afirmo: a Graça tem enigmas que chegam aos sentidos humanos como calamidade!

A partir de mim e de muitos outros vejo como os melhores tempos com Deus quase sempre acontecem enquanto os homens pensam que estamos vivendo os piores tempos possíveis, do mesmo modo que muitas vezes os nossos piores tempos com Deus acontecem enquanto os homens pensam que estamos vivendo nossos dias de glória.

Por isso digo a você o seguinte: sempre seja reverente ante a calamidade humana (qualquer uma e qualquer que seja), pois, mesmo que para você o espetáculo possa ser o de uma calamidade, ou mesmo de morte, ainda assim, em geral, é justamente nessas horas que as vidas das pessoas mais mudam para o bem delas mesmas.

É direito seu e meu - e mesmo um dever à sabedoria - evitarmos todas as formas de calamidade.

O sábio vê o mal e se esconde dele!...

Todavia, se lhe acontecer algo que você não busca, mesmo que aconteça em razão de um erro seu, não trate o acontecido como algo mau para você. Ao contrário, abrace aquilo como disciplina e poda do amor de Deus, limpando você a fim de que você dê fruto ou dê muito mais fruto ainda.

Entretanto, nesse dia mau, agüente firme as “interpretações”, pois se com o “justo Jó” os seus “amigos justos” fizeram como fizeram, então o que não dizer de você e de mim, especialmente quando, à semelhança do “bom ladrão”, estamos pagando por aquilo que os nossos atos merecem?

Portanto, não se deixe matar pelos “amigos” e nem pelas “interpretações”. Tais coisas são piores que o diabo nessas horas. Ao contrário, seja submisso a Deus, não faça perguntas, mas responda a tudo com a fé que se entrega pedindo que o melhor de Deus brote do caos. E não aceite que o caos tenha o carma de ser Caos para sempre; pois, de fato, é do caos que Deus principia todas as coisas novas.

Apenas creia. E qualquer que seja o caos, haverá de se tornar adubo para o maior plantio da Graça divina em sua vida - isso se seu coração seguir em silêncio quebrantado.

Nele, que conhece os segredos dos corações dos homens,

Caio

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